Machinarium

O Machinarium é uma aventura gráfica. Foi desenvolvido pela Amanita-Design, um pequeno estúdio independente de desenvolvimento de jogos da República Checa, e vencedor de um prémio excelencia pela sua arte gráfica no Independent Games Festival. Consiste em resolver puzzles e enigmas. É um ótimo exercitador para a mente!

Conceptualmente (e tecnicamente), o jogo está muito bem concebido, cheio de decisões de game design muito inteligentes. A maior de todas está sem dúvida na ausência de qualquer tipo de diálogo falado ou escrito. Os personagens comunicam por uma espécie de “balões de pensamento” com imagens e sinais.

Notável também é o seu trabalho Estético, tanto o visual como o auditivo( música de Tomáš Dvořák). Além do já referido prémio, Machinarium ja ganhou “Best Graphic Design”, “Best Music”, “Best Animation” (Aggie awards) e o prémio Aesthetics ( IndieCad). Estes prémio são apenas um reconhecimento público daquilo que todos nós podemos comprovar. O universo de Machinarium além de muito bem desenhado, está muito bem construido. Um sistema de layers, com um efeito parallax, dá profundidade ao jogo e transmite uma sensação de tri-dimensionalidade.

Este é claramente um daqueles jogos, que merecem a etiqueta de Art Game.

Outra particularidade do jogo, desta feita a nível da própria mecânica, é o facto de só podermos interagir com objetos dentro do raio de ação do nosso protagonista, o pequeno robot chamado Josef. Pode parecer irritante ao início pois temos de estar constantemente a movimentar o robot, mas este conceito eleva significativamente o nosso pensamento estratégico e dedutivo.

Já que falamos de pensamento e raciocínio, o “puzzling” está soberbo. Para quem é fã de aventuras gráficas provavelmente não estranhará, mas mesmo a comparar com outros do género, Machinarium tem momentos deslumbrantes. Apesar de haver um sistema de dicas, aconselho a não recorrer, pelo menos não constantemente. O retorno da sensação de auto-realização é bem mais forte quando resolvemos os puzzles por nós. Ao fim ao cabo , não é esse um dos motivos pelo qual nós jogamos?

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Aconselho a jogarem a demonstração, e se realmente gostarem e estiverem a pensar em comprar, vale a pena. Não é muito caro, está disponível para várias plataformas, inclusive a PS3  e  os lucros da venda vão diretamente para os produtores.

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Serious Games (parte IV): Artgames

De todas as categorias de Serious Games, esta parece a mais redundante, não fossem os videojogos artefactos de arte digital. A comprovar esta tese , recentemente (finais de 2012) o MOMA (Museum of Modern Art) adquiriu  14 videojogos para a sua coleção.

Os Art Games têm o objetivo de, ao invés de promover um  desafio ou mecânicas viciantes, transmitir uma mensagem, extrair emoções ou criar experiências memoráveis. A expressão “Art Game” foi utilizada academicamente pela primeira vez em 2002 e serviu para enfatizar os jogos como arte digital interativa.

Neste campo e recordando o meu post anterior, os jogos Indie têm contribuido significativamente para o caudal de art games criados anualmente, muito por força de os artistas/games designers conseguirem dar vida à sua visão artística nestas produções, com equipas pequenas e com custos baixíssimos. Talvez de outra forma, poderia-se tornar num grande artefacto economico mas pouco artistico.

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Imagens do jogo Samorost da Amanita-Design

Naturalmente, e avaliando os jogos à luz da chamada Tétrade do Jogo (Estéticas, Mecânicas, Tecnologia e Narrativa)  é mais fácil identificar o factor “arte” através das Estéticas, isto é, o aspeto visual e sonoro. Muitos artistas plásticos e músicos aproveitam para embarcar numa aventura digital sob a forma de jogos onde expõe a sua palete criativa mas desta feita num formato interativo.

Neste campo ganha força as trilhas sonoras, o voice acting, a modelação 3D, a ilustração 2D, as animações, o uso de texturas (3D ou 2D), enfim toda uma gama de ferramentas e técnicas que possibilitam comunicar uma ideia visual ou auditiva.

Contudo, cada vez mais a força da Narrativa ganha contornos  preponderantes na criação de uma história e/ou personagens envolventes nos videojogos. Contar uma historia, criar uma história é um acto artístico. Como tal, há jogos que a sua mais valia artistica é exatamente a forma como exprime emoções. Este é um elemento tão crucial que, mesmo os jogos AAA não abdicam de nos presentear com um forte fio narrativo enquanto tentam chegar às massas e vender milhões.

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Imagem do jogo Journey

Dream Machine, um jogo feito com recurso a cartão e barro.

Em relação às Mecânicas, é bem mais controverso . Ou pelo menos alguns poderão pensar. Repescando a definição inicial de que os jogos são objetos de  “arte digital interativa”, é legítimo pensar que Mecânicas de jogo inovadoras aliadas, ou não à Tecnologia estão na base de novas ideias e novos modelos /formas de interação, constituindo assim uma forma de arte por si só. Por exemplo o Move da PlayStation ou o Kinect da XBOX possibilitam uma experiência de jogo completamente diferente, mas para esta mudança ser total, os próprios jogos devem ser pensados de forma a extrair o máximo destes periféricos, e não ser só um jogo “normal” que em vez de ser jogado com comando, joga-se com o Kinect!

Por esta altura já nos apercebemos que os 4 elementos da Tétrade do Jogo encontram-se estritamente ligados entre sim e consequentemente o sentido artístico de um jogo encontra-se indissociável da Tétrade do Jogo. É crucial ter isto em mente pois estas 4 características, 4 elementos condicionam ou evolucionam  o desenvolvimento de qualquer tipo e qualquer gênero de jogo.

Na pesquisa para este post encontrei um jogo curioso sobre arte, realmente muito interessante. O jogo consiste em criar obras e expo-las numa galeria de arte. Quase que uma metáfora para o que temos vindo a falar. A grande novidade é a forma como o autor Pippin Barr, recorre a clássicos dos jogos (Snake, Tetris e Space Invaders) como forma de criação das peças artísticas.

Pegando num conceito antigo, Pippin Barr conseguiu alcançar algo inovador, apresentar-nos uma proposta de jogo em que nós próprios conseguimos ser criativos e criadores. Como que levando à letra a máxima de que OS JOGOS SÃO ARTE!