John Paul Jones, o médio centro dos Led Zeppelin

O futebol é o desporto mais popular do mundo. Sendo Portugal um país futebolístico, vibramos todos com a nossa equipa nacional e quase todos com o clube do nosso coração (para evitar polémicas ,não vou referir o clube da cor do meu coração). Com isso em mente, recorro frequentemente a analogias futebolísticas para explicar algum ponto de vista. Hoje é um destes dias.

No desporto rei é frequente recordar ou evocar os ponta-de-lanças, que com os seus golos dão vitórias e títulos aos clubes, mas esquecemo-nos dos outros jogadores que sacrificam o seu talento em prol do colectivo, como por exemplo um trinco que recupera e faz jogar a equipa, sem nunca dar nas vistas. Vivem na sombra dos avançados.

Na música isso também acontece, não são raros os casos de talentos que são empurrados para uma existência na sombra de outros talentos, muitas vezes apenas por questões de gestão de egos, outras porque a indústria procura ícones e os artistas mais polémicos geram mais controvérsia e, consequentemente, atraem mais atenções o que favorece as vendas.

Robert Plant e Jimmy Page eram os marcadores de serviço dos Led Zeppelin. Também o talentoso e problemático John Bohnam atraía as atenções dos media e dos fãs. Qualquer um destes três é frequentemente listado como dos melhores vocalistas, guitarristas e bateristas da história do rock.

Frequentemente esquecido fica John Paul Jones, o homem dos sete instrumentos, o mais ecléctico membro dos Led Zeppelin. John Paul Jones era e é, um excelente executante quiçá, o melhor da banda do “Dirigível de Chumbo”. Um pouco à semelhança dos Beatles (outro dia…outro dia), os Led Zeppelintambém têm duas faces, visivelmente expostas no seu best of dividido em dois volumes, O Early Days e o Latter Days . Estes volumes bem se podiam chamar “Os dias de Jimmy Page” e os “dias de John Paul Jones” respectivamente, que ninguém ficaria chateado.

Com um aumento dos problemas pessoais de Page e alguns infortúnios de Plant, Paul Jones foi assumindo um papel cada vez maior na banda. Esta fase consegue ser muito mais rica e variada que a anterior. Podemos ouvir reggae (“D’Yer Mak’er”), funk (“the Crunge”) e um experimental prog rock oriented sound em “No quarter”. Este tema em particular, apesar do riff impressionante de Page no refrão, não teria sido possível sem a ambiência criada por Paul Jones nos sintetizadores e o seu solo de piano a contrastar com os solos de guitarra, trademark da banda. Tudo isto num só álbum, o Houses of the Holy.

O tema “Trampled under foot“, de Physical Graffiti, ajuda a vincar a crescente importância e contributo de Jones, e mesmo o popularíssimo “Kashmir“, que apesar de não ser da co-autoria de Jones, só foi possível pela inclusão de todos os elementos importados pelo baixista/teclista para os Led Zeppelin.

Em ‪In Through the Out Door‬, Jones apenas não assina o tema “Hot Dog” (Page/Plant). “All my love” e “South Bound Saurez” são duas criações suas que fogem mais uma vez ao arquétipo dos Led Zeppelin e “Fool in the Rain” tem o mais belo groove da banda, aquele saboroso half-time shuffle sublimemente tocado por Bonham foi inspiração para muitos bateristas nos anos 80 (conhecem “Rosanna” dos TOTO??).

Tal e qual um médio centro, Jonh Paul Jones contribuiu criativamente para a equipa, mas mais que isso, a sua versatilidade levou a que os restantes músicos também dessem mais de si a explorassem outras latitudes musicais, jogou e deu a jogar. Grandes craques mundiais, como Flea, John Deacon, Steve Harris, Geddy Lee, entre outros, foram influenciados por Jonh Paul Jones.

A sua carreira não foi só Led Zeppelin, antes disso era um conceituado músico de sessão tendo trabalhado com Rolling Stones, Cat Stevens, Rod Stewart, Jeff Beck e muitos outros. Compositor, produtor e arranjador, emprestou o seu nome a produções de REM, Heart, Ben E. King e…Paul Mccartney!! Além das colaborações nos albúns dos outros, ainda teve algum tempo para si. Lançou dois álbuns a solo (Zooma em 1999 e Thunderthief em 2001).

Atualmente é a estrela maior da constelação que é os Them Crooked Vultures, onde toca com dois músicos de elite (Dave Grohl e Josh Homme) que ainda jogavam nos infantis quando Paul Jones já distribuía jogo nos dois lados do Atlântico.

 

Texto original publicado em Meia de Rock

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A “grande escapadela” dos Blur

Se os Oasis tiveram o seu “(What’s the Story) Morning Glory?”, os Blur tiveram “The Great Escape” (1995). Curiosamente, ambos sucederam dois outros grandes álbuns, “Parklife” (1994) dos Blur e o álbum de estreia dos Oasis,  “Definitely Maybe”.
O álbum começa com a guitarra crua de Graham Coxon num mini diálogo com o sintetizador de Damon Albarn para arrancar com “Stereotypes”. É impressionante como, em dois segundos, os Blur nos conseguem dar uma antevisão do que será o resto do álbum. Não sendo o melhor tema do disco, é sem dúvida a melhor escolha para o seu começo.

 

No rol de “personalidades” de “The great Escape”, temos ainda o “Charmless Man” e o milionário que se refugia na sua “Country House”. Estes dois singles foram o meu primeiro contacto com o álbum. Aliás, “Country House” foi o meu primeiro contacto com Blur. Não se lembram do vídeo com o porquinho e o homem de chapéu-de-côco? Puro anos noventa. Puro Bri t Pop.

 

É um álbum equilibrado e heterogéneo, não é daqueles que têm duas ou três músicas e o resto é “copy/paste”.
Não vamos ouvir solos frenéticos de guitarras, nem nada que se pareça. Isto é Blur, não é Led Zeppelin. No entanto, para o que é “exigido”, são muito competentes. Uma batida assertiva, um trabalho criativo nas guitarras, bons arranjos e boa produção. Em relação a Alex James, bem, sempre tive uma admiração pelo trabalho da guitarra-baixo dos Blur. Com o devido respeito pelas lides vocais de Damon, mas acho que este é o elemento que, não sobressaindo, é a cola que une os Blur.

 

Em suma, são 15 temas centrados na descrição de personagens e estereótipos sociais, tema, aliás, recorrente em Blur desde “Modern Life is a Rubish” (1993). Vendo assim, até faz sentido começar com “Stereotypes”.

 

Além dos já referidos temas, aconselho a dar uma “vista de ouvidos” em “Top Man”, que é ‘naughty by nature’, ou “Fade Away” que retrata o desaparecimento de um indivíduo após o casamento. Gosto particularmente do contraste da letra sombria com a música algo carnavalesca. O tema “Ernold Same”,  que além de estereotipar as pessoas monótonas, parece-me uma pequena homenagem a Pink Floyd (“Arnold Layne”?).

 

“The Great Escape” é uma espécie continuação de  “Parklife”, que por sua vez é a de “Modern Life is a Rubish”. Aliás, os três álbuns são vistos mesmo como uma trilogia. A própria banda ainda tentou incluir a palavra “life” no título, mas sem sucesso.

 

Texto original publicado em Meia de Rock

Prog Rock- O manual do iniciante

 

Ultimamente ando a ouvir muito prog rock ( são aquelas fases), e imbuido de espírito progressivo, decidi fazer um tour no sentido de explicar e evangelizar mais pessoas!

É complexo de se explicar o Prog Rock, tal como o gênero em si já é complexo. Mas tentando ser (muito ) sucinto, diria que é um subgénero do rock, com fortes influências de música erudita ( principalmente barroco) e jazz, ao contrário do rock “americanizado” mais baseado no blues. A nível de composição, caracteriza-se por ter temas longos com várias mudanças de andamento e compasso.

O movimento nasce no Reino Unido no final dos anos 60. Bandas como os Beatles, começaram a adicionar elementos clássicos e orientais ao seu rock tradicional, dando origem assim à sua fase psicadélica de onde saiu, entre outros, o grande álbum, “Sgt. Pepper and the lonely hearts Club Band”.

Ou então os Pink Floyd, impulsionados pelo génio de Syd Barret. Aliás, para quem ainda não “agarrou” o gosto por este gênero, a minha sugestão é começar exatamente por Pink Floyd e o seu psicadelic rock, que é visto como uma variante prog.

Outra banda de “fácil acesso” é Supertramp. Apesar de alguns temas mais mainstream, não deixa de ter forte influência prog, e aqui sugiro o álbum “Crime of the Century”.

Entrando no campo do prog puro e duro, a minha sugestão é “Selling England by a Pound” dos Genesis. Foi o disco que me fez apaixonar pelo prog. Se ouvir Peter Gabriel a relatar uma luta de gangs londrinos, como se fosse um jogo de futebol,num tema de quase 12 minutos não os fizer gostar do gênero, não sei o que poderá.

 

 

Texto original publicado em Meia de Rock

Suite para flauta e trio de Jazz

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No âmbito da temporada musical promovida pela Direção Regional da Cultura, recebi um convite para tocar uma suite do compositor francês Claude Rolling, com o Yuri Pankiv na flauta, Nataliya Atamas Silva, no piano e a Gianna di Toni no contrabaixo. Eu na bateria naturalmente!

A obra intitulada “Suite para flauta e jazz piano” ou “Suite para flauta e jazz piano trio”, ou ainda como nós lhe chamávamos,  “Suite para flauta e trio de jazz”, data de 1975 e acaba por ser uma espécie de jazz erudito. Mas dizê-lo desta forma não faz jus à peça. Tem momentos  mais clássicos claro, aliás, o inicio da suite chama-se mesmo “Baroque and blue”, mas a maior parte são mesmo momentos jazzísticos. Mais: tem momentos mais latinos ( “Sentimental”) e até momentos mais prog ?!?. Isso mesmo, Prog, como Progressive Rock. O tema “Fugace” tem um segmento a fazer lembrar clássicos prog, em especial Jethro Tull, obviamente por causa da flauta.

Uma particularidade desta obra, que eu como baterista aprecio consideravelmente, é a raridade de compassos quaternários! 7/4, 5/4, 3/2, 6/8, 3/4, ritmicamente é uma palete bem interessante, mas eleva os índices de concentração ao máximo. O tema 5/4 ( “Javanaise” ) fez-me logo lembrar o clássico “Take 5” de Dave Brubeck. Aliás, foi este o tema que me deixou logo rendido à obra, os outros, fui-me apaixonando aos poucos.

Uma chamada de atenção importante: este quarteto foi formado exclusivamente para a ocasião, pelo que foi montar a suite em 3 semanas, fazer a atuação e…adeus. Nem deu para criar aquela cumplicidade musical entre elementos, que só se ganha com o tempo.

A actuação em si foi no Arquipélago- Centro de Artes Contemporâneas na Ribeira Grande. A acústica da sala ( atuamos na Black Box) é excelente, tanto que não foi necessário amplificação. O único senão da não amplificação é que, para os músicos , acaba por ser mais difícil ouvirem-se, principalmente os que se encontram mais afastados.

“Blackstar” : o ‘requiem’ que Bowie escreveu para Bowie

 

O ano de 2016 começou com uma grande perda para a música. O mundo privou-se de David Bowie, falecido dois dias depois de ter feito 69 anos. Dos artistas mais duradouros da cena musical – 52 anos de carreira e 27 álbuns de estúdio, uma média impressionante de mais que 1 álbum a cada 2 anos – Bowie inventou-se e reinventou-se ao longo dos anos, merecendo justamente o epíteto de “O Camaleão”. Deixou-nos o seu último álbum, “Blackstar”, lançado no dia do seu sexagésimo nono aniversário, como uma espécie de ‘requiem’ de autor, como uma nota antecipada da sua partida.

Aliás, ‘Blackstar’ está recheado de referências à morte e à vida após a morte. O próprio tema “Lazarus” vai buscar o nome a um personagem biblico (Lázaro) que é conhecido pelo facto de ter morrido e ressustitado, e o videoclipe retrata uma imagem de Bowie morto com moedas nos olhos. Claramente, uma referência a Caronte, o barqueiro da mitologia grega que levava os mortos através do rio Estige. A própria letra “Look up here, I’m in heaven… Everybody knows me now”, dá a ideia de que Bowie já antevia a sua morte. E “everybody knows me now” reflete exatamente o fenómeno que tem ocorrido nas redes sociais, de ‘posts’ sobre Bowie.

Enfim, “Blackstar” é um álbum mais experimentalista do que os seus antecessores. Talvez tenhamos de recuar mais de 20 anos para encontrar algo semelhante na sua carreira. ” ‘Tis a pity she was a whore” é um tema liricamente cru, basta traduzir a letra para perceber isso e nota-se uma forte influência jazzística.

Curiosamente, o álbum consegue soar a Bowie, sem que isso de soar a Bowie exista. “Sue”, “Girl Loves Me”, “I Can’t Give Everything Away” bem podiam ter saído de outros álbuns dele.

 

 

Texto original publicado em Meia de Rock

Queen II – o mais heavy e progressivo álbum dos Queen

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Até atraiçoado pelo próprio nome, “Queen II” parece a sequela óbvia do álbum de estreia dos Queen, “Queen” (ena pá, tanta realeza aqui misturada). Uma escuta transversal parece confirmar essa opinião. Mas Queen (a banda) não se escuta na transversal.

“Queen II” consegue ser mais fantasioso, mais cru, mais progressivo e espontâneo do que o seu predecessor. Aliás, não fosse a pomposa extravagância de Mercury, a guitarra saturada de May, o ecletismo de Deacon e o ‘rocker fan boy’ que é Taylor, e “Queen II” poderia ter sido o início de uma carreira como banda de rock progressivo. Ainda bem que não o foi (e olhem que sou grande apreciador de ambos: Queen e rock progressivo).

“Queen II” é um álbum carregado de mitologia: temos o tema “Ogre Battle”, o “The Fairy Feller’s Master-Stroke”, onde Mercury nos delicia com uma ‘perfomance’ vocal magnífica, ou ainda o mais consagrado “Seven Seas of Rhye”, que já aparece completo ao contrário do que acontece no álbum anterior.

O disco só tem uma composição de Taylor, “The loser in the End”. Não tem os elementos mitológicos ou folk (ouvir tema “Some day one day”) típicos do ‘prog’, mas tem um excelente ‘groove’. Um misto de “ When the levee breaks” (Jonh Bonham) e “50 ways to leave your lover” (Steve Gadd). Os bateristas aí fora sabem que estou a falar de monstros consagrados.

“Queen II” apresenta-nos Queen como uma banda de ideias mais maduras e com ambição. É dos álbuns preferidos dos fãs ‘hardcore’ da banda e apesar da grande proximidade com o progressivo é o disco mais ‘heavy’ do catálogo da banda.

É daquelas ‘antiquités’ que vale a pena colecionar. Mas não só: quem aprecia realmente a combinação de elementos que faz a boa música, não vai ficar indiferente a “Queen II”.

Como curiosidade; a capa de Queen II tornou-se mundialmente famosa um ano depois, quando os Queen recuperaram a imagem para o videoclipe de … Bohemian Rhapsody.

 

Texto original publicado em Meia de Rock

As canções d’ A Naifa… dos outros

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O mais recente álbum dos A Naifa é simples! Não vive de rasgos de virtuosismo, mas o virtuosismo desmedido nem caia bem neste cenário. É um álbum competente por músicos competentes. São nove “As canções d’A Naifa”, todas elas roupagens de temas de outros autores portugueses.

O álbum começa de modo inesperado. Inesperado no (muito) bom sentido. “Sentidos pêsames” dos GNR não é necessariamente o tema que se esperava. Não é um tema mediático que garante “likes”, mas consegue um “ok, isto promete. Vamos ver no que isso dá”.

E o que dá, é uma viagem por décadas de música portuguesa. Com algum arrojo, ou não constasse do rol de músicas que desfilam no disco nomes sonantes, como “A tourada” ou “Desfolhada Portuguesa”. É sempre ingrato fazer algo bom, com o que já é excelente. Não sendo nada de transcendente, estas duas versões não envergonham em nada o conceito original.

Engane-se porém, quem julga que o álbum vive destes hits. Todos os temas estão bem tratados. Em todas as “recriações”, A Naifa empresta o seu cunho próprio. Gosto particularmente das versão de “Bolero do Coronel Sensível que fez amor em Monsanto” de Vitorino de “Libertação” original de Amália, temas obviamente com muito mais espaço para a exploração, e especialmente de “Imenso” de Paulo Bragança. A marcação “bélica” na batida da bateria, a marcha imposta pelo baixo, o toque subtil da guitarra de todos nós, e uma voz que dispara “ai como eu quero viver no plural, este singular é pior que mal…” estamos apenas a 20 segundos de musica, e ela já fez jus ao nome: “Imenso”!

Os A Naifa já tinham demonstrado que eram capazes de compor, agora provam que sabem dispôr.

Não tem a inocência do álbum de estreia, nem o tom provocatório de 3 minutos antes da maré encher, mas no geral As canções d’A Naifa não foge ao que o projeto já nos tem habituado. Sem deslumbrarem, têm um álbum deslumbrante!

Texto publicado em Meia de Rock

Sonoridade “vintage” em embalagem moderna

 

Não são assim tantas bandas “pós-2000” que me conseguem encher as medidas. Mas uma das que sempre me impressionou pela sua regularidade são os escoceses com nome de arquiduque. Falo de Franz Ferdinand.
Têm um bom groove. Não encontro nada de transcendente, mas também não encontro nada medíocre. O tempo dirá qual das duas facetas virá primeiro ao de cima, mas o facto é que, para já, têm-se mantido fiéis a si próprios.

 

Reconheço que até tive algum receio de ouvir o mais recente disco, “Right Thoughts, Right Words, Right Action”, com medo que isso mudasse a minha opinião sobre a banda. Mas não. Pelo contrário, Franz Ferdinand consegue com este disco aproximar-se mais da sua sonoridade do álbum, homónimo, de estreia (”Franz Ferdinand”, 2004), do que de “You Could Have it So Much Better” (2005) e “Tonight” (2009).
Apesar desta ressalva, coloco os álbuns todos na mesma prateleira. Todos têm temas mais ‘catchy’, desde “Take Me Out”, a “Do You Want To”, passando por  “No You Girls” e acabando em “Stand On the Horizon”, por ordem cronológica.
Eventualmente, se tivesse que eleger um, escolhia “You Could Have it So Much Better”, quanto mais não seja pelo valor nostálgico. Era este álbum que ouvia enquanto fazia os trabalhos de grupo. Aquela entrada energética com “The Fallen”, logo de seguida “Do You Want To” e quando dávamos por nós, estávamos a jogar ping-pong e a curtir o som. Quem disse que a universidade não é dura?

 

Daí a ouvir o primeiro disco foi um (pequeno) passo. E que passo bem dado. Pois, nostalgias à parte, é capaz de ser mesmo o álbum mais forte da banda. Numa fórmula que felizmente volta a ser recuperada no seu último disco, como já tinha referido. Aconselho a ouvir “Tell Her Tonight”, “Auf ache”, “The Dark of the Matinée”… aliás, ouçam tudo.

Gosto deste rock escocês (não se ouvem gaitas-de-foles, fiquem descansados). É elegante e energético. Acaba por ser um misto interessante de estilos estritamente ligados mas com diferenças entre si, como o Madchester (movimento musical de Manchester dos anos 80), New Wave, BritPop, Rock alternativo e Indie Rock.

É o tipo de som que se pode esperar na trilha sonora de um Pro Evolution Soccer ou FIFA qualquer.
Mas o que acaba por me atrair mais é mesmo a sua sonoridade vintage numa embalagem moderna.

Ary dos Santos, o poeta de canções!

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No Meia de Rock fala-se de música. Seja de que estilo for. De guitarristas virtuosos, de vocalistas glamorosos, de êxitos e dissabores. Música. Mas, e os restantes 50% da equação? Falo da letra, do  poema, da mensagem. Quantas e quantas vezes uma canção nos é querida e especial por causa da magia das palavras de alguém?

Com isso, gostaria de lembrar José Carlos Pereira Ary dos Santos, um grande ‘poeta de canções’, que arrisco a apontar como muito à frente do seu tempo. Mesmo hoje em dia teríamos de correr atrás dele.

Como escrever sobre o homem que devia ensinar Portugal todo a escrever? Nascido da alta burguesia e homem de excessos, Ary dos Santos era um autêntico “Cavalo à Solta” no panorama literário, poético, revolucionário e musical neste nosso país. Crítico social de uma acidez tão dissimulada, e no entanto tão óbvia, como se comprova na “Tourada” ou em “Cai Cai”. Aliás, este último tema é um exemplo da simplicidade genial que Ary dos Santos imprimia nos seus poemas. Que outra pessoa teria a ousadia de começar um poema com dois versos exclusivamente dedicados a enunciar um nome próprio: “Dona Amélia Gerivaldo Antunes Castro Girão”? Que, refira-se, “do alto de um salto alto caiu redonda no chão”.
Já na sua altura, Ary dos Santos professava que “Gente a cair é o que há mais”. Não vos parece extremamente atual?

A sua capacidade de observação e descrição do meio envolvente é fenomenal: “Chegam os meninos de mota, com a china na bota e o papá na algibeira (…) que apodrece no tempo e não cheira”. Tudo isso no cenário criado n’ “O Café”.
Ary dos Santos, que “até gostava do rock”, “só não queria que lhe lixassem a vida”, foi pessoa de “nunca andar a reboque”.
Com o seu talento, Ary desfaz os complexos enredos de uma “novela” e através de um poema coloca Portugal inteiro em frente à “Telé-Telé”, para revelar que no final “talvez a Júlia vá casar com o irmão dela”.

Realço a relação profícua com Fernando Tordo. De todos aqueles que deram voz aos poemas de Ary dos Santos, Tordo foi, na minha opinião, aquele que melhor conseguiu musicar e interpretar as suas palavras.

Muito mais haveria para dizer… Evitei falar dos temas mais populares, porque esses já têm mediatismo suficiente, procurei enunciar temas menos conhecidos, mas de igual ou maior qualidade.

José Carlos Pereira Ary dos Santos foi um poeta de excessos, com um excessivo talento. Ouvir, ou ler, Ary dos Santos dá-nos sempre “tempo para nascer, para viver, para existir”.

Vozes femininas em homenagem a Ary dos Santos

Editado em 2009, “A Rua da Saudade” é um disco de homenagem a Ary dos Santos. Pelas vozes de Mafalda Arnauth, Viviane, Susana Félix e Luanda Cozetti chegam até nós alguns dos poemas menos mediáticos de Ary dos Santos, revestidos com uma sonoridade atual. Temas como “Cai Cai”, “Rock Choc”, “O Café”, ou as mais conhecidas “Estrela da Tarde” e “ Cavalo à solta” encontram-se perfeitamente representados. Um total de onze temas num belo disco de música e poesia que, graças ao Spotify podemos disfrutar!

Texto Publicado no Meia de Rock

Para ouvir com bom gosto e “Gentil’esa”

Quis o destino que o meu caminho musical se cruzasse com o de Teresa Gentil. Foi assim que acabei por escutar o álbum “Gent’ilesa” ( 2008).  Confesso que não estava à espera do que ouvi. Quer dizer, não sei bem o que esperava, mas não era certamente algo do género Carla Bley com toque latino e pitadas de Zappa, e carradas de intervenção social e … Uau, fiquei siderado!

O álbum até começa num registo ‘low profile’. “Gigantes” já traz consigo a textura latina que vai perdurar ao longo do álbum, mas é só o aperitivo.

As coisas começam a entrar noutro terreno logo a seguir com o “Samba da Surra”, uma excelente sátira e crítica à violência doméstica, com referências – também elas excelentes na sua adaptação –  a “O mar enrola na areia” e “Sebastião come tudo” (o violino aqui ‘parte tudo’). A maneira como a música se desenvolve faz-me lembrar Frank Zappa.

Nesta refeição completa, o’ main course’ é “George”, tema vencedor do prémio Zeca Afonso (cantar Abril, Almada, 2007).  Ousado, arrojado e extremamente bem executado. “George era um rapaz baixo / muito mais baixo que o habitual/ altamente estipulado / para um governador geral  / de uma nação saudável/ cheia de história cultural …” e ainda vamos no terceiro tema do álbum.

O estilo Club Jazz de “Grau Zero” a servir de pano de fundo a mais um dos magníficos textos de Teresa, ou o flamencado “Un País” pontilhado de bandolim a fazer lembrar o melhor dos cantautores portugueses, são os temas seguintes. Faz lembrar um banquete em que a comida não pára de vir. Quando julgamos que já comemos tudo o que queríamos, há mais. Muito mais.

A nossa grande Natália Correia volta a ganhar voz em “Gent’ilesa”, assim como Eugénio de Andrade. Talvez por isso a segunda metade do disco seja mais pausada, mas nem por isso menos ritmada, e sempre, mas sempre, completamente ajustada aos dizeres dos referidos poetas. Saliento o “Projeto de Bodas”. O poema de  Natália Correia casa bem com o ritmo latino da bossa. A visão artística de Teresa faz o resto, doseando o que deve ser cantado e o que deve ser declamado.

“Gent’ilesa” está muito bem executado, não há sombra de dúvida, mas o seu maior valor recai mesmo na composição, na sua idealização. É para se ouvir com gentileza e bom gosto.

Segue aqui o álbum completo:

Texto publicado em Meia de Rock